sábado, 4 de maio de 2019

Rádio


"Mas também era movido por um impulso interior que não sabia muito bem justificar, esclarecer, saber exatamente o que era, do que se tratava. Foi a partir dos 15 anos, quando passei em primeiro lugar no concurso para radioatores que comecei a me entender mais. A entender porque ouvia rádio daquela forma, e os outros não. Porque os outros ouviam a mesma novela de rádio e ninguém além de mim repetia a fala dos atores, se preocupava em anotar nomes e guardar aquilo como se fosse um livro sagrado. Acho que foi aí que descobri que queria ser mesmo um ator." [in Ary Fontoura: Entre rios e janeiros de Rogério Menezes]





sexta-feira, 3 de maio de 2019

100 anos


"Você pode viver até os 100 anos se abandonar todas as coisas que fazem com que você queira viver até os 100 anos." [Woody Allen]

domingo, 28 de abril de 2019

Última Deusa

        Última deusa
Alberto de Oliveira
 

Foram-se os deuses, foram-se, em verdade;
Mas das deusas alguma existe, alguma
Que tem teu ar, a tua majestade,
Teu porte e aspecto, que és tu mesma, em suma.

Ao ver-te com esse andar de divindade,
Como cercada de invisível bruma,
A gente à crença antiga se acostuma
E do Olimpo se lembra com saudade.

De lá trouxeste o olhar sereno e garço,
O alvo colo onde, em quedas de ouro tinto,
Rútilo rola o teu cabelo esparso...

Pisas alheia terra... Essa tristeza
Que possuis é de estátua que ora extinto
Sente o culto da forma e da beleza.


sábado, 27 de abril de 2019

Do you speak English?


"“Do you speak English?” - Es la frase que a menudo me hizo temblar en más de un establecimiento, a partir de cafés en Italia a las estaciones de tren en Japón. Lamentablemente, no es el peor arranque de conversación. Aquel se reserva para la explosión más flagrante de apenas comenzar una frase en inglés - a pesar de que el establecimiento no se encuentra en un país de habla inglesa. Suponiendo que alguien (o todos) habla inglés es, en mi opinión, la 
peor forma de una introducción y, a pesar de mis años de experiencia de viaje, todavía me cuesta entender por qué algunas personas simplemente no pueden aprender una o dos frases en el idioma local. Seguramente el mundo sería un lugar mucho mejor si hubiéramos dedicado unos minutos para memorizar algunas palabras en otro idioma y estoy seguro de que haría felices a muchos locales a lo largo del camino."  [in Do you speak English? de Wayne Parry]



sexta-feira, 26 de abril de 2019

domingo, 21 de abril de 2019

Soneto


Soneto
Álvares de Azevedo (1831 -1852)
 

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre as nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo,
Por ti — as noites eu velei chorando,
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!


sábado, 20 de abril de 2019

Bonjour Messieurs

—  Bonjour Messieurs. Service de la navigation de la Seine, Arrondissement Champagne, sou o cabo Levec — falou ele rapidamente.
Era perceptível como o homem amava sua posição. Perdu estava quase esperando que o cabo Levec lhe desse uma multa pelo abandono não autorizado da própria vida.
—  Infelizmente, sua placa de Navegação Fluvial Francesa não está visível. E peço que o senhor me mostre os coletes salva-vidas obrigatórios, por favor. Obrigado.
—  Vou ali limpar umas janelas — disse Jordan.
Quinze minutos, uma reprimenda e uma multa depois, Monsieur Perdu esvaziou o caixa e o dinheiro que tinha nos bolsos em troca de uma placa de navegação em águas francesas, um conjunto de coletes salva-vidas neon, que eram obrigatórios nas eclusas do Ródano, e uma edição oficial das diretrizes da NFF. Mas o dinheiro não foi suficiente.
—  Então — disse o cabo Levec. — O que fazemos agora?
Havia um brilho de satisfação em seus olhos?
—  Por acaso o senhor gosta de ler? — perguntou Perdu, e sentiu que murmurava envergonhado.
—  Claro. Não considero correto esse costume bobo de botar no mesmo barco homens que leem e fracotes e afeminados — respondeu o gendarme fluvial, enquanto acariciava Kafka, que fugiu dele com a cauda empinada.
—  Posso oferecer talvez um livro… ou alguns livros como saldo do pagamento?
—  Bem, posso levá-los em troca dos coletes. Mas o que fazemos com a multa? E como os senhores querem pagar a taxa de detenção? Não tenho certeza se os proprietários da marina são muito… fanáticos por livros. — O cabo Levec pensou um pouco. — Sigam os holandeses. Eles sabem onde almoçar e atracar de graça.
Quando passaram pelas estantes de livros no ventre de Lulu para que Levec pudesse escolher o pagamento do saldo, o cabo da NFF virou-se para Max, que polia a janela ao lado da poltrona de leitura e evitava olhar diretamente para o gendarme.
—  Ei, o senhor não é aquele escritor famoso?
—  Eu? Não. Com certeza não. Eu sou… hum… — Jordan olhou rapidamente para Perdu — … filho dele, um vendedor de meias esportivas totalmente normal.
Perdu encarou-o. Jordan havia acabado de se oferecer para adoção?
Levec pegou A noite de uma pilha. O gendarme examinou a imagem de Max na orelha do livro.
—  Tem certeza?
—  Hum… talvez seja eu, sim.
Levec deu de ombros, compreensivo.
—  Claro. Com certeza o senhor tem muitas fãs.
Max mexeu nos protetores de orelha que trazia ao redor do pescoço.
—  Sei lá — murmurou ele. — Pode ser.
—  Bem, minha ex-noiva amou seu livro. Falava dele sem parar para mim. Pardon, digo, o livro do camarada que parece com o senhor. Talvez o senhor pudesse… escrever o nome dele aqui?
Max assentiu.
—  Para Frédéric — ditou Levec —, meu grande amigo.
Max escreveu a dedicatória com dentes cerrados.
—  Ótimo — disse Levec, e abriu um sorriso para Perdu. — Seu filho também vai pagar a multa?
Jean Perdu assentiu.
—  Mas é claro. Ele é um bom rapaz.
Depois de Max esvaziar os bolsos e entregar algumas notas e moedas de pouco valor, os dois ficaram lisos. Com um suspiro, Levec pegou outras publicações recentes “para os colegas” e um livro de receitas, Cozinha para solteiros.
—  Espere aí — pediu Perdu.
Em seguida, pesquisou rapidamente a seção “Amor para principiantes” e pegou a autobiografia de Romain Gary.
—  Para que isso?
—  O que o senhor quer saber é o que isso cura, caro cabo — corrigiu Perdu com delicadeza. — Cura a decepção de saber que nenhuma mulher nos ama mais do que aquela que nos deu à luz.
Levec enrubesceu e saiu bem rápido do barco-livraria.
—  Obrigado — sussurrou Max.
Quando o barco da gendarmerie se foi, Perdu teve mais certeza ainda de que romances sobre fugitivos e aventureiros fluviais deixava de fora coisas tão banais como selos tributários e multas por coletes salva-vidas.
—  O senhor acha que ele vai contar para alguém que estou aqui? — perguntou Jordan quando o barco policial se afastou.
—  Por favor, Jordan. O que há de tão terrível assim em conversar com algumas fãs ou com a imprensa?
—  Eles podem perguntar em que estou trabalhando?  [in A Livraria Mágica de Paris de Nina George]