domingo, 2 de junho de 2019

A Torre

A Torre
Jarid Arraes

minhas paredes
desabaram

- só se ouviu
o som - 

oitocentos reais 
de tijolos cimento
azulejos rejunte
branco

- as paredes
foram
desabando - 

como todos 
os grandes
muros
políticos
protetivos
cativos
coloridos
mijados

- onde se escovam
os cansados - 

minhas paredes
cumpriram
seu tempo

sábado, 1 de junho de 2019

Janela

"Ter notícias suas é como abrir uma janela, mas ainda não é como abrir uma porta. Talvez repita demasiado a palavra porta, mas precisa entender que aqui essa palavra é quase uma obsessão e, embora possa lhe parecer incrível, muito mais obsessiva que a palavra grade. As grades estão aí, são uma presença real, admitida, compreendida em toda a sua chata magnitude. Mas as grades não podem ser outra coisa senão o que efetivamente são. Não há grades abertas e grades fechadas. Em compensação, uma porta é muitas coisas. Quando está fechada, e sempre está, é a clausura, a proibição, o silêncio, a raiva. e abrisse (não para um recreio ou para um trabalho ou para um castigo, que são várias outras maneiras de estar fechada, mas para o mundo) seria a recuperação da  realidade, da gente querida, das ruas, dos sabores, dos cheiros, dos sons, das imagens e do tato de ser livre. Seria, por exemplo, a recuperação de você e de seus braços e de sua boca e do seu cabelo e ah, de que adianta tentar dar voltas em um trinco que não cede, em uma fechadura empedernida." [in Primavera num espelho partido de Mario Benedetti]


sexta-feira, 31 de maio de 2019

Sofrimentos





"Quando alguém suporta sofrimentos próprios não tem necessidade de atribuir-se dores alheias." [Mario Benedetti]



domingo, 26 de maio de 2019

Poeminha Vazio

Poeminha Vazio
Roberto Nogueira Ferreira

Acoitou-se, quieto
Vazio sentimento
Faz de mim 
Morada
Não disse ao que veio
Nem quando partirá
Talvez fique um tempo
Atormentado
Sem plenitude
Vazio
Á espera do nada
Que nunca virá.



sábado, 25 de maio de 2019

Mobilidade

"Quando se tem que ficar irremediavelmente parado, é impressionante a mobilidade mental que se pode adquirir. Pode-se ampliar o presente tanto quanto se quiser, ou lançar-se vertiginosamente para o futuro, ou dar marcha a ré, que é mais perigoso porque lá estão as lembranças, todas as lembranças, as boas, as regulares e as execráveis."  [in Primavera num espelho partido de Mario Benedetti]



sexta-feira, 24 de maio de 2019

domingo, 19 de maio de 2019

Saudades


SAUDADES
Casimiro de Abreu




Nas horas mortas 
da noite Como é 
doce o meditar 
Quando as estrelas 
cintilam Nas ondas 
quietas do mar; 
Quando a lua 
majestosa Surgindo 
linda e formosa, 
Como donzela 
vaidosa 
Nas águas se vai mirar!

Nessas horas de 
silêncio, De 
tristezas e de 
amor, 
Eu gosto de ouvir 
ao longe, Cheio de 
mágoa e de dor, 
O sino do 
campanário Que 
fala tão solitário 
Com esse som 
mortuário Que 
nos enche de 
pavor.

Então – proscrito e 
sozinho – Eu solto aos 
ecos da serra 
Suspiros dessa saudade 
Que no meu peito se 
encerra. Esses prantos 
de amargores São 
prantos cheios de 
dores: 
– Saudades – dos meus amores, 
– Saudades – da minha terra!