domingo, 30 de outubro de 2016

Soneto XIX


Soneto XIX
Paulo Bomfim


Ante a partida quanta vez se hesita,
E desenhamos fugas sobre toalhas;
Embarcamos no gume das navalhas,
Indagamos da esfinge que nos fita.

O adeus pertence ao cais, algo nos grita
O nome, outros nos chamam das batalhas,
Um lenço enxuga o suor de  nossas falhas,
E remos batem contra a  laje escrita.

As mãos, as pobres doidas, lêem no espaço,
Olhos tocando sombra sempre nova,
E silêncios lustrando nosso passo.

Ah! quanta vez se hesita ante a partida,
A esquina é um realejo e a noite aprova
Aquilo que se chega em despedida.



sábado, 29 de outubro de 2016

Vendo os Defeitos


"Um mestre tinha centenas de discípulos. Todos rezavam na hora certa, exceto um, que vivia bêbado. No dia da sua morte, o mestre chamou o discípulo bêbado e lhe transmitiu os segredos ocultos. Os outros se revoltaram.
- Que vergonha! - diziam. - Nós nos sacrificamos por um mestre errado, que não sabe ver nossas qualidades.
Diz o mestre:
- Eu precisava passar estes segredos para um home que eu conhecesse bem. Os que parecem muito virtuosos, geralmente, escondem a vaidade, o orgulho, a intolerância. Por isso eu escolhi o único discípulo que eu podia ver o defeito: a bebedeira. [in As Mais Belas Parábolas de Todos os Tempos de Alexandre Rangel]





sexta-feira, 28 de outubro de 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

Tão Azul



Tão Azul
Paulo Bomfim



Tão azul ver-te partir
Escoltada de silêncio!
Os alaúdes calados,
Os retratos pensativos,
Limo na voz das estátuas,
Cantares emurchecidos,
A seiva petrificada.
Longe navios parados
E moendas sem moer.
Perto uma ausência crescente,
Toda clareira de adeus,
Um soluço nos relógios,
Gota de sal sobre a mesa,
Fumaça intacta no espaço
E a palavra sem ser dita
Num estojo de veludo.
Tão azul ver-te partir
Entre capítulos brancos!



sábado, 22 de outubro de 2016

Grama



... "Eu preferia uma lupa aos fósforos. Passávamos as tardes queimando pequenos montes de grama cortada dos jardins. Adorava ver a grama mudar de cor. Adorava quando a chama começava a correr através da grama. A gente tem mais controle com uma lupa. Era mais fácil, embora precisasse de técnica. Se o sol ficasse fora das nuvens por tempo suficiente, a gente podia cortar uma folha de papel sem tocá-la, era só pôr duas pedras da cada lado para a folha não voar. Competíamos: queimar, soprar; queimar, soprar; queimar, soprar. Aquele que queimasse o papel em dois pedaços teria que deixar o outro queimar a mão." ...  [Paddy Clarke Ha Ha Ha de Roddy Doyle]





sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Na mesma nau



"Todos fomos embarcados na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o tempo." [Pe. Antônio Vieira]




domingo, 16 de outubro de 2016

Tempo de partir



Tempo de Partir
Paulo Bomfim


Sei que é tempo de partir.
Há flor de sangue nos coldres, 
Esporas tinindo o agreste,
Asas batendo nos ombros,
Balsas flutuando no verso.
Sei que é tempo de partir.
Há convite nos sapatos,
Convocação nas gravatas, 
Chamados no cinto enfermo,
Lenços pandos de horizonte,
Sei que é tempo de partir.
Guardem de mim o que fui,
Minhas fronteiras de herança,
Os andejos testamentos,
Legados de inconformismo,
Um rir de risada antiga,
Uma ternura vadia,
E esta paixão por destino.
Sei que é tempo de partir:
- Para as perguntas da noite,
As estrelas em meu peito.